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Da surpresa à investigação: ANCG estuda galinhola reprodutora em Portugal Continental

Da surpresa à investigação: ANCG estuda galinhola reprodutora em Portugal Continental

Desde 2009, a Associação Nacional de Caçadores de Galinholas (ANCG), através de uma rede de caçadores colaboradores, tem vindo a monitorizar a distribuição, a abundância e a estrutura etária da galinhola (Scolopax rusticola) durante os períodos de outono e inverno em Portugal continental. Este trabalho de ciência cidadã, baseado em informação recolhida pelos caçadores durante as suas jornadas de caça à galinhola, e submetida em plataforma digital própria da ANCG, tem contribuído para aumentar o conhecimento sobre a espécie. Ajudou, por exemplo, a completar informação para o Atlas das Aves Invernantes em Portugal Continental e, a nível internacional, para estudos sobre a tendência das populações de galinhola na Europa.

Em Portugal, a galinhola é considerada migradora/invernante no território continental e sedentária/residente nas regiões insulares. Até há pouco tempo não havia indícios de que a espécie se pudesse reproduzir também no continente. Para surpresa dos amantes da galinhola, em 2024, um vídeo partilhado nas redes sociais parecia confirmar aquilo que muito poucos suspeitavam. No vídeo, filmado na região de Montalegre em junho desse ano, via-se uma galinhola adulta acompanhada de quatro juvenis, com um ou dois dias de vida! Portanto, aparentemente, a presença da espécie em território continental, não se restringia aos períodos de outono e inverno, levantando a hipótese de existir uma população reprodutora.

Nos dias que se seguiram, a ANCG encetou diligências para confirmar a veracidade daquelas imagens, tendo logo na primeira visita ao campo observado machos em voo de exibição. A partir desse momento, e atendendo aos objetivos da ANCG, ficou claro que os trabalhos desenvolvidos pela associação não se deviam restringir aos períodos de outono e inverno. Nos meses que se seguiram foi sendo preparada uma estratégia a aplicar na primavera/verão de 2025, com o objetivo de avaliar a distribuição desta possível população.

Em 2025 foram estabelecidos vários pontos de observação em áreas com potencial ecológico para a nidificação da galinhola na região de Montalegre. Estes pontos foram visitados por um grupo de colaboradores da ANCG, tendo a espécie sido detetada em exibição em vários locais. Estes resultados animaram a ANCG a repetir o trabalho em 2026, desta vez num novo conjunto de pontos na mesma região, o que permitiu identificar mais locais com presença da espécie. Embora a presença de machos em exibição não seja um indicador definitivo de nidificação, a distribuição espacial e o número de contactos com aves em exibição, sugerem que esta população poderá estar mais distribuída na região e não apenas confinada ao local onde o vídeo de 2024 foi captado.

Uma vez que as observações pareciam ser relativamente tardias para a época do ano, havia o risco de a população estar a ser subavaliada. Por isso, em 2026 foi feito um esforço adicional para perceber a variação temporal da exibição, um trabalho que se pretende repetir na próxima época.

À medida que a ANCG tem vindo a compreender melhor esta população, novas questões têm surgido. Serão estas aves residentes? Será a sua presença recente? Ou terão passado despercebidas durante décadas? Terá a população continuidade com a que existe em Espanha? São perguntas que ficam em aberto e que reforçam a importância de continuar a observar, registar e estudar a galinhola.

Fotografia: João Ferreira